As saias mexicanas de Frida Kahlo e a Vênus Manca

Você, em algum momento da sua vida, já ouviu falar da Frida Kahlo. A pintora mexicana, conhecida por seus autorretratos de cunho surrealista, é até hoje um ícone da independência feminina. Abraçava sua individualidade e sua personalidade fortemente, desviando do que era conhecido como a beleza padrão da época. Porém, o interessante é que nem mesmo Frida conseguiu combater totalmente  os preconceitos relacionados à estética feminina e, sobretudo, à deficiência.

Em 1913, com seis anos de idade, contraiu poliomielite. As marcas da doença foram deixadas como uma lesão no seu pé direito, que passou a ser mais curto e mais fino que o esquerdo. Como consequência, a menina ganhou, na escola, o apelido de Frida pata de palo (Frida perna de pau). Para encobrir a sequela da doença, desde cedo começou a usar calças de modo que suas pernas ficassem escondidas. Posteriormente, passou a se vestir com as longas e exóticas saias mexicanas, que se tornaram símbolos do estilo tehuana, presente em suas pinturas coloridas e cheia de flores.

As saias ornadas e rodadas, nesse sentido, foram utilizadas por Frida como um meio de fugir da hostilidade contra a deficiência. À frente da sua época, a pintora deve ter que lidar com o constante preconceito às diferenças.

Esse mesmo tipo de intolerância é presente no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual o personagem principal, depois de morto, resolve se dedicar à tarefa de narrar sua vida. Brás Cubas, durante o romance de Machado de Assis, relata seus relacionamentos amorosos. Quando conhece Eugênia, filha de D. Eusébia, se encanta com sua beleza. Porém, ao descobrir que a menina de 15 anos tinha um deficiência nos membros inferiores, sente piedade de si mesmo por ter se apaixonado por ela.

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárneo. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”

O narrador, assim, prende-se à ideia de que ser “bonita e coxa” é uma grande ironia da natureza. Essa combinação, na lógica de Brás Cubas, não deveria existir.

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Mais à frente na narrativa, o protagonista refere-se à amada como “Vênus Manca”. Vênus, sendo o nome da deusa greco-romana do Amor e da Beleza, representa a beleza de Eugênia. Manca, por outro lado, representa a deficiência que a menina tinha. Ou seja, tal nome seria a junção da beleza e da deficiência de Eugênia, muito contraditória na visão de Cubas.

Em suma, tanto a pintora icônica Frida Kahlo, quanto a personagem Eugênia do romance realista de Machado de Assis, tiveram que se deparar com situações de hostilidade por conta de suas deficiências na perna. Isso representa, assim, que o preconceito às pessoas com algum tipo de deficiência, sobretudo em relação à associação pouco comum entre beleza feminina e deficiência, sempre foi presente.

– Lorena

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