Móbile na Metrópole- João Pedro

Aquecimento: MIS

Muito interessante como uma mudança na rotina pode alterar a nossa percepção do ambiente escolar. Enquanto esperava os colegas se reunirem para nos dirigirmos ao MIS, fiquei observando a movimentação no pátio, bem diferente dos dias normais de aula. Estávamos basicamente nós, do segundo ano. Cada um com uma expectativa diferente em relação ao MNM. Todos, ao que parece, buscando lançar um novo olhar sobre a cidade.

A utilização do ônibus para chegarmos ao MIS foi bastante curiosa. Percebi que nos olhavam com interesse, afinal, nosso grupo de vinte lotou o coletivo. O MIS é muito mais legal do que eu esperava. Curioso como criamos o hábito de visitar museus quando viajamos, mas não frequentamos os da nossa própria cidade. O documentário visto chama-se (R)Evoluções Invisíveis, um pouco lento para o meu gosto.

O que mais gostei nesse primeiro dia foi a caminhada de retorno para a Móbile. Acho muito legal caminhar pela cidade, mas até hoje tenho receio de certas regiões. Acredito que o MNM vai ampliar meus horizontes, literalmente.

DIA 1

Cheguei na escola às 6:30. Como o 1º ano também estava saindo para o Estudo do Meio, a movimentação já era grande nesse horário. Demoramos mais ou menos duas horas para sairmos da Móbile de bicicleta com os guias da empresa Cria Conexões. Fomos pela ciclofaixa da Hélio Pelegrino, em direção à Faria Lima até o Parque do Povo, onde nos encontramos com um dos integrantes da banda Barbatuques, músicos que explora os barulhos produzidos pelo corpo. Fomos até o bike-café Aro 27 e falamos com o proprietário. Almoçamos no restaurante de comida asiática e no de comida árabe, recomendado pela professora Teresa.

Após o almoço fomos até o Beco do Batman ver os grafites. Passamos pelo Estádio do Pacaembu e fomos até a Praça Roosevelt, onde foi proposta uma atividade de meditação. Após isso, o guia Fagner relatou sua experiência pessoal de ex-presidiário. Acho que foi o momento mais marcante do dia. Lançar um novo olhar sob a metrópole é também olhar as pessoas de uma outra forma, acho.

Levamos as bikes até o hotel quando já escurecia. Mas o dia ainda não havia acabado. Fomos até a Rua Marconi conhecer uma ocupação do MMPT (Movimento de Moradia para Todos), onde conversamos com os dirigentes do Movimento e conhecemos o funcionamento da ocupação. Fiquei impressionado com a organização, com as regras bem rigorosas para os moradores. Voltamos para o hotel, jantamos e retornamos à Praça Roosevelt, para as oficinas de Parkour (a que escolhi), Break e Sticker. Reparei certa hostilidade dos frequentadores da Praça com o nosso grupo de 170 alunos da Móbile, mas tudo bem, afinal, modificamos a “paisagem urbana” da Praça mesmo. Retornamos exaustos ao hotel às 23:30.

Como eu já disse, o momento mais marcante do dia, na minha opinião, foi o relato do Fagner. Ele foi criado em um bairro da periferia de São Paulo, apenas pela mãe, sem a presença paterna. A mãe trabalhava o dia inteiro como doméstica e ele tinha como exemplo os bandidos do bairro. Cometeu pequenos furtos na infância/adolescência e foi preso por tráfico de drogas após completar dezoito anos. Foi baleado e ficou seis anos encarcerado. Quando saiu, teve muita dificuldade para conseguir emprego, até que teve a ideia de se tornar guia turístico. Mais tarde, guia turístico de tours de bicicleta, pois sempre teve muita familiaridade com esse meio de transporte. O Fagner propositalmente nos contou sobre sua vida antes de nos despedirmos, pois assim poderíamos conhecê-lo sem preconceitos. Inteligente da parte dele e realmente me deixou muito pensativo a respeito dos julgamentos superficiais que fazemos das pessoas.

Hoje pedalamos por aproximadamente 28 Km. Dia muito longo, muito diferente da minha rotina. Muitas imagens para processar na minha mente. Mas acho que o projeto tinha esse objetivo mesmo, o de dar oportunidade para conhecermos um mundo fora de Moema.

DIA 2

Nosso grupo tinha que se encontrar às 8:40 no saguão do hotel. Pegamos metrô na Estação República e fomos até a Estação Armênia. Já conhecia a República porque minha mãe trabalha na Secretaria da Educação, que fica no antigo prédio do Caetano de Campos, o prédio principal da Praça. Da Estação Armênia, vimos o rio Tamanduateí, que corta a cidade. Continuamos de metrô até a Estação Tietê e caminhamos até a Cruzeiro do Sul, para olharmos os grafites. Fomos até o Parque da Juventude, onde funcionava o Complexo Penal do Carandiru. No Museu que lá foi construído, tivemos uma conversa com o ex-presidiário Maurício, que nos contou sua experiência atrás das grades.

Almoçamos em um PF da região. Iríamos em seguida a uma Mesquita, mas fomos informados pelo outro grupo para não irmos, pois eles não foram bem recebidos. Então fomos direto ao Red Bull Station, na Praça da Bandeira, onde funciona um centro de apoio a projetos culturais e a start ups. O prédio é muito interessante. Lá funcionava uma usina elétrica que ficou parada por muitos anos. A Red Bull o comprou e mesmo mantendo a parte externa (que não pode ser alterada pois foi tombada pelo patrimônio histórico), reformou a parte interna de um jeito bem legal.

Voltamos caminhando para o hotel. O clima estava estranho na cidade, pois havia estourado o escândalo da delação da JBS. Jantamos e tivemos um sarau.

Mais uma vez, o momento mais marcante do dia, na minha opinião, veio do relato de um ex-presidiário. Maurício nos contou que era do pavilhão 9 quando houve o massacre e só está vivo por um lance de sorte. Contou que esteve preso várias vezes, por tráfico de drogas e roubos. Assim como o Fagner, também criticou a dificuldade de se ressocializar. Hoje ele dá palestras. Esse relato, dentro daquele clima do museu, me impressionou muito. Afinal, quantos ex-detentos existem em São Paulo? E se o objetivo da prisão é também ressocializar, como o ex-detento poderá voltar para a sociedade se sempre sofrerá preconceito? Dúvidas…

DIA 3

Último dia do Projeto. Alívio? Não sei. O último dia amanheceu com chuva. Fomos de metrô até a Vila Maria Zélia, uma vila operária perto do Brás que completou 100 anos recentemente. Era para termos uma apresentação de teatro ao ar livre, mas com a chuva apenas os diretores da peça vieram conversar com a gente.

Em seguida, nós do grupo escolhemos um passeio pelo bairro da Liberdade para visitarmos um mosteiro budista. Mas a visita não foi autorizada porque não tínhamos reserva. No final, fomos a um centro espírita, onde fiquei bastante surpreso. Mais abaixo explicarei o motivo.

O almoço foi em um restaurante chinês. Após o centro espírita fomos de ônibus ao MAC, perto do Ibirapuera, onde tivemos o encerramento do projeto, com o grupo de 20 e depois com todos os alunos. Voltamos para a Móbile caminhando pelo Parque do Ibirapuera, onde apesar de tudo ser tão familiar para mim, tudo parecia tão diferente.

Agora vou explicar porque o centro espírita me impressionou e foi o momento que mais me marcou nesse último dia. Sou ateu e não acredito em nada. O centro espírita não me pareceu religioso e sim um lugar em que as pessoas são assistidas, sem pressão para adotarem a religião. Lá existe um lugar para auxiliar dependentes químicos, creche e auxílio a grávidas, mesmo que nenhum deles seja espírita. Pareceu um lugar muito organizado e do bem. Isso me fez entender melhor meu bisavô de 95 anos, avô do meu pai, dirigente de uma entidade espírita. Ele nunca tentou convencer ninguém de que a religião dele era melhor, só aparece para as pessoas de bom humor e deseja sempre boa sorte para todo mundo. É mais um na metrópole. Um cara legal que com certeza se interessaria pela vida dos ex-presidiários. Vou contar a ele sobre a vida desses caras que eu conheci.

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